A “patriótica” rodovia União e Indústria, pensada por Mariano pai e construída por Mariano filho

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A “patriótica” rodovia União e Indústria, pensada por Mariano pai e construída por Mariano filho

Recentemente comentávamos, nesta coluna, sobre a fazenda Fortaleza de Santana, cuja sede, que não mais existe, se situava em Goianá. Mas também dissemos que essa fazenda outrora pertenceu ao Comendador Mariano Procópio Ferreira Lage, o proponente e construtor da rodovia macadamizada União e Indústria, entre Petrópolis (RJ) e Juiz de Fora (MG). E que este último, por sua vez, era filho do capitão Mariano José Ferreira Armond e de dona Maria de José de Santana, a qual, depois de viúva, tornar-se-ia a 1ª Baronesa de Santana.

 Mas, outro dado curioso sobre o pai de Mariano Procópio é-nos fornecido novamente pelo escritor Wilson de Lima Bastos, segundo o qual: “rupturas profundas, em grande parte de ordem política, haviam dividido a família Armond. E foram estas tão sérias que Mariano José, o sexto dos oito irmãos Ferreira Armond, cujo primeiro era Marcelino José (Barão de Pitangui I), se desligou, não apenas do convívio familiar, como também das Alterosas [ou seja, da região de Barbacena], em se fixando definitivamente cá nas baixadas [do rio Novo], na importante Fazenda Fortaleza de Santana, quando, inclusive, projetou a rodovia que, anos depois, após sua morte, foi levada a termo pelo filho Mariano Procópio”.

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 Sobre esta passagem, cabem os seguintes comentários:
As “rupturas profundas” entre os Ferreira Armond, conforme já dissemos, advinham do fato de que esta importante família era predominantemente militante do partido Liberal, enquanto que o capitão Mariano José pertencia ao partido Conservador (do mesmo modo que seu filho, Mariano Procópio, também o seria).

Para escrever esse livro, Lima Bastos baseou-se em diversas fontes, inclusive em entrevistas com descendentes da família de Mariano Procópio, feitas em Barbacena por volta da década de 1960. E, amparado nessas informações, ele atesta que o capitão Mariano José Ferreira Armond de fato saiu de Barbacena para se estabelecer na Zona da Mata mineira, onde foi dono da fazenda Fortaleza de Santana. Já esta última informação, conforme há pouco comentamos nesta coluna, parece conflitar com outra versão, segundo a qual esta grande fazenda não seria do Capitão Mariano José, mas sim teria sido comprada pelo seu respectivo sogro, Joaquim José de Santana, depois da morte do primeiro (ocorrida em 1837). Entretanto, segundo também observamos, é possível que a verdade sobre isso talvez esteja no meio. Ou seja, parece-nos razoável supor que tanto o capitão Mariano José quanto sua esposa (ou sua respectiva família) possuíam terras naquela região, e que, de algum modo (segundo detalhes que, entretanto, nos são desconhecidos), essa fusão acabou resultando no grande latifúndio correspondente à Fortaleza de Santana.

     Porém, independentemente de tais incertezas, Lima Bastos apresenta também outro dado valioso. Ele diz que foi o capitão Mariano José quem primeiro teve a ideia de uma estrada de rodagem entre a Zona da Mata mineira e a Corte carioca. E, uma vez construída, essa rodovia serviria para escoar a vasta produção cafeeira dessa região, por meio de tropas de muares, além de também atender a vários outros propósitos, como o transporte de passageiros em diligências e também como um meio da Zona da Mata importar os produtos manufaturados e outros vindos do Rio de Janeiro.

     Entretanto, o capitão Mariano José morreria sem ver esse sonho realizado. Não obstante, seu filho, Mariano Procópio, ainda muito jovem, empreenderia uma longa viagem de estudos pela Europa e depois pelos Estados Unidos. E, em meio a essa rica experiência no exterior, segundo Lima Bastos, o jovem Mariano se deparou “entre tantas novidades, [com] duas [que], sobretudo, o empolgaram porque vinham ao encontro do projeto que o pai há muito alimentava, da construção de uma estrada de rodagem: o novo processo de pavimentação do leito de estradas e o sistema de cobrança de pedágios./ No primeiro caso, tratava-se da descoberta feita por Mac Adam, na Escócia, de uma mistura de cascalho e piche para revestir o leito de velhas estradas, que passaram a receber o nome, então, de macadame. No segundo, a possibilidade de manutenção de uma estrada pela cobrança de pedágio nas modalidades de uma taxa para trânsito e da cobrança de transporte. Além disso, ficou muito interessado, também, com as mais recentes novidades acerca de ferrovias”.

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Uma vez de volta ao Brasil, Mariano Procópio então, com 31 anos de idade (em 1852), obtém do governo imperial a concessão para a construção da rodovia entre Minas e o Rio de Janeiro. Passa os anos seguintes no planejamento e na organização desse grande empreendimento, bem como na captação de fundos para custeá-lo. Entre outras providências, constitui uma empresa de capital aberto, a Companhia União e Indústria, com um capital de cinco mil contos de réis (sendo que cada conto correspondia a um milhão de réis), dividido em 10.000 ações. E também promove a vinda, para o Brasil, a fim de trabalhar nessa gigantesca empreitada, de engenheiros e operários especializados da Europa, entre os quais um grande contingente de alemães, que, em sua maior parte, terminariam por se instalar na cidade de Juiz de Fora, o ponto final da rodovia, onde o próprio Mariano residia e possuía vastas propriedades.

     Tudo isso foi feito com o apoio explícito do governo imperial. E, segundo o próprio D. Pedro II declarou sobre a União e Indústria, ainda em 1856 (conforme Lima Bastos): “Uma empresa cujo fim é a construção de uma estrada que ligue duas províncias tão importantes [Minas Gerais e o Rio de Janeiro], e que, continuando talvez para o futuro, até as margens do segundo rio do Brasil [o São Francisco, o segundo maior rio brasileiro, depois do Amazonas], reunirá os interesses de seis províncias [Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas, além das duas já mencionadas], de certo, merece ser chamada patriótica”.

     Em 1860, é então lançada a pedra fundamental da rodovia. Depois disso, as obras se desenvolvem rapidamente, de modo que, no ano seguinte, precisamente no dia do 40º aniversário de Mariano Procópio – 23 de junho de 1861 –, a estrada teria, afinal, sua inauguração realizada pelo soberano brasileiro, o qual, pela primeira vez, visitava a cidade de Juiz de Fora, para isso hospedando-se na própria residência desse notável empreendedor mineiro (analogamente, portanto, a D. Pedro I, que se hospedara na casa de Mariano pai, quando Mariano filho ainda era um menino, em Barbacena, cerca de três décadas antes).

     Uma vez inaugurada, a União e Indústria tornar-se-ia a grande responsável pelo crescimento e protagonismo econômico que Juiz de Fora passaria a exercer em sua respectiva região, e que perdura até os dias de hoje, mesmo muito depois do término das atividades dessa companhia. Porém, mais do que isso, a estrada acabaria também influenciando sobremaneira os destinos de outras localidades situadas perto dela, ou nem tanto, como Rio Novo e São João Nepomuceno, segundo mais alguns detalhes que serão vistos na sequência desse texto.

Por Luís Pontes

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